Um tiquinho do que pode se tornar, se eu nao for tão
inútil assim, um romance.
PRÓLOGO
Acordo e lá
está ela, toda esparramada, em meu colchão sem cama,
encostado num canto do quarto. O pequeno despertador barato, no
chão, me diz que são quinze para as quatro da
manhã. Ótimo. Mais algumas horas ao lado dela.
Não sei porque teimo em dormir ao lado delas sempre que
trepamos.
Você nunca sabe se vai conseguir dormir bem ao lado delas.
É algo difícil de se palpitar. Só no meio da
noite a coisa fica clara. Só depois que ambos já se
cansaram o bastante para caírem no sono. A grande jogada
é que, com algumas, você precisa se cansar mais, para
não acordar um pouco depois e se sentir assim.
Desconfortável. Com outras, você pode simplesmente
deitar, apagar e ainda ficar abraçado, se quiser. É
até bom. Acho que, no fim, todo mundo precisa disso. Ou
talvez apenas eu precise. Tanto faz.
Eu acabo por me levantar depois
de alguns minutos. Às vezes é até melhor
quando elas resolvem sozinhas que querem dormir em outro lugar.
Outra cama, outro quarto, outra casa, outra cidade, eu não
me importo. Às vezes é melhor. Poupa você desse
tipo de situação. Por isso eu me levanto e invento
alguma vontade de mijar, só para sair do quarto e me afastar
um pouco dela. Chuto minha cueca de cima do colchão, no
caminho, e fecho a porta devagar para não acordar a
mocinha.
Forço pra ver se sai alguma coisa, mas só caem uns
poucos pinguinhos quentes, bem quentes, tão quentes quanto
eles podem ficar depois algum bom tempo que você passa
esfolando seu pau. Forço mais e minha bexiga se faz de
incômoda. Daqui não sai mais nada, meu filho. Nem me
dou ao trabalho de puxar a descarga, depois de tal fiasco. Vou
até o espelho e perco algum tempo tentando me reconhecer.
Duas coisas com as quais eu nunca consegui me acostumar: meu nome e
meu rosto.
A lâmpada anêmica do banheiro não consegue
iluminar nem metade do que deveria, quando fixo meus olhos na
superfície de vidro manchado presa à parede. Deixa
minhas olheiras mais acentuadas, meus olhos mais fundos, meu cabelo
mais seboso e minha cara barbada mais azul. Faz com que eu descubra
pequenas rugas em formação ao redor dos olhos e
riscando de leve minha testa. Faço um bochecho com a
água da pia e apago a luz. Melhor deixar o rosto para
amanhã.
De volta ao quarto, resolvo me sentar sobre a
cadeira dobrável, de metal, e olhar para a moça na
cama. Como pode ser tão difícil dormir ao lado dela?
Não é feia. É até bem agradável.
Ressonando bem de leve, de leve mesmo, enquanto dorme. O cabelo,
castanho claro, todo bagunçado, está espalhado por
sobre o rosto. Consigo distinguir apenas o contorno de sua boca e
gosto do que vejo. O batom já se foi faz um tempo. É
bonita sem ele. Tem os braços finos encolhido diante dos
seios. Uma tatuagem no antebraço esquerdo. Nem sei direito
de quê. Magrinha, miúda, as pernas meio separadas. A
esquerda quase totalmente dobrada sobre o lençol e a direita
esticada. Outra tatuagem na batata da perna. Posso entrever o
contorno da bunda, com o pouco de luz que atravessa a cortina
esburacada.
É bonita. Como pode ser tão difícil dormir ao
lado dela?
Pego um copinho de requeijão com um resto de
conhaque. Tomo um gole e olho para ela enquanto me distraio com a
mesma pergunta por uns bons minutos.
Como pode ser tão difícil?
O sexo
com ela foi bom, mas não quero dormir ao seu lado.
Também não posso simplesmente mandar a menina sair de
meu colchão e não tenho nenhuma pretensão de
me deitar sobre nenhum outro lugar que não seja ele. Foi
muito bom fazer sexo com ela, mas agora não consigo
simplesmente me deitar e dormir. E ela é tão
bonita...
Não quero dormir e o contorno do seu quadril é uma
das coisas mais lindas que já vi na minha vida.
Não quero dormir, bebo o resto do conhaque num gole e vou
para o colchão. Amanda, Sabrina, Maria, Clarah, Camila,
Luíza, Paula, Vanessa, Andréia, Natalia, seja
lá qual for seu nome, eu te acordo, nós
recomeçamos e ficamos quites.